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NR-01 tira saúde mental do discurso e a coloca no centro da prevenção no trabalho

por Imprensa

Em encontro realizado no dia 17 de julho, FEMACO e SIEMACO Vale do Paraíba reuniram especialistas e lideranças para discutir riscos psicossociais, responsabilidades empresariais e os impactos das bets

Durante décadas, a segurança do trabalho foi associada principalmente a equipamentos de proteção, acidentes e riscos visíveis. Agora, essa compreensão está mudando. Sobrecarga, assédio, pressão excessiva, falta de apoio e outros fatores capazes de provocar adoecimento mental também precisam fazer parte das estratégias de prevenção das empresas.

Essa transformação foi o ponto central de mais uma edição da campanha “Não é Drama. É Norma!”, promovida pela FEMACO e pelo SIEMACO Vale do Paraíba nesta sexta-feira, 17 de julho.

O encontro reuniu especialistas, dirigentes sindicais e representantes de diferentes instituições para discutir os desafios da aplicação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-01) e fortalecer o compromisso coletivo com ambientes profissionais mais seguros, saudáveis e respeitosos.

A mensagem transmitida ao longo da programação foi direta: saúde mental no trabalho não pode permanecer limitada a campanhas motivacionais, palestras ocasionais ou ações realizadas depois que o adoecimento já aconteceu. Ela deve integrar a gestão permanente dos riscos ocupacionais.

A empresa também precisa olhar para aquilo que não é visível

A atualização da NR-01 incluiu expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Isso exige que as organizações observem não apenas o trabalhador, mas principalmente as condições em que ele exerce suas atividades.

Excesso de demandas, jornadas desgastantes, assédio, conflitos constantes, metas incompatíveis com a realidade, falta de autonomia e ausência de suporte são exemplos de fatores que podem afetar a saúde psicológica, física e social.

O objetivo não é avaliar a personalidade do trabalhador nem responsabilizá-lo por não conseguir suportar um ambiente inadequado. A análise deve identificar problemas relacionados à concepção, à organização e à gestão do trabalho, permitindo a adoção de medidas preventivas antes que os danos se agravem.

Essa mudança amplia o próprio significado de segurança. Um local de trabalho não pode ser considerado verdadeiramente seguro quando protege o corpo, mas ignora situações que adoecem a mente.

Psicologia, direito e comunicação na mesma conversa

A programação contou com palestras da psicóloga Daniela Sousa, da advogada Glédis Lúcio e da comunicóloga Renata Ketendjian. As especialistas apresentaram diferentes dimensões de um desafio que não pode ser enfrentado por uma única área.

Daniela Sousa abordou como a organização do trabalho e as relações profissionais podem interferir no equilíbrio emocional. A discussão ajudou a mostrar que o sofrimento psicológico não surge apenas de fragilidades individuais: ele também pode ser provocado ou agravado pelas condições enfrentadas diariamente.

Glédis Lúcio tratou das responsabilidades das empresas e da necessidade de transformar as exigências da NR-01 em procedimentos efetivos de identificação, avaliação e controle dos riscos.

Renata Ketendjian destacou o papel estratégico da comunicação. Em um ambiente onde os trabalhadores não se sentem seguros para relatar problemas, até as melhores políticas podem existir apenas no papel. Escuta, clareza e confiança são essenciais para que a prevenção funcione.

Ao reunir psicologia, direito e comunicação, a campanha apresenta a saúde mental de forma integrada: é preciso compreender o problema, conhecer as responsabilidades e criar caminhos seguros para o diálogo.

“Um ambiente humano também é uma obrigação”

Para a presidente do SIEMACO Vale do Paraíba, Isabel Estevam, a atualização da norma ajuda a romper com a ideia de que promover bem-estar é apenas uma iniciativa voluntária das empresas.

“Construir um ambiente de trabalho mais humano não é somente uma boa prática. É uma exigência da nova NR-01. O trabalhador precisa ser ouvido, respeitado e protegido também dos riscos que não são visíveis, mas que podem comprometer profundamente sua saúde e sua vida”, destacou Isabel Estevam.

A presidente ressaltou ainda a importância da participação conjunta de entidades sindicais, empresas e instituições. A prevenção se torna mais eficiente quando é construída com quem conhece as dificuldades reais das atividades e vivencia diariamente os ambientes de trabalho.

Bets: quando a promessa de ganho rápido coloca o salário em risco

A campanha também abordou os efeitos das bets e apostas on-line na vida dos trabalhadores. O tema foi incluído por sua relação com o endividamento, o sofrimento emocional e a desestruturação familiar.

As plataformas funcionam continuamente, são de fácil acesso e oferecem estímulos que podem levar o usuário a apostar repetidamente. Depois de uma perda, muitas pessoas acreditam que uma nova aposta será suficiente para recuperar o dinheiro. Essa tentativa pode alimentar um ciclo de prejuízos cada vez maiores.

Quando o comportamento se torna compulsivo, as consequências ultrapassam o valor perdido. Contas essenciais deixam de ser pagas, a renda familiar é comprometida e surgem sentimentos de culpa, ansiedade, irritação e isolamento. Esses impactos também podem alcançar o ambiente profissional, prejudicando a concentração, as relações e o desempenho.

Levar esse debate aos trabalhadores é uma forma de prevenção. O problema não deve ser tratado com julgamento ou constrangimento, mas com informação, acolhimento e orientação para a busca de ajuda.

Uma norma só transforma quando sai do papel

A presença de dirigentes sindicais e representantes de diversas instituições demonstrou que a construção de ambientes saudáveis depende de cooperação. Cabe às empresas avaliar riscos e adotar medidas preventivas. Aos sindicatos, compete acompanhar a realidade das categorias, orientar os trabalhadores e cobrar o cumprimento das normas. Aos próprios trabalhadores deve ser garantido o direito de participar, relatar situações e contribuir para a identificação dos problemas sem medo de retaliações.

A campanha “Não é Drama. É Norma!” atua justamente nesse espaço: transforma linguagem técnica em conhecimento acessível e aproxima a NR-01 de quem será diretamente impactado por sua aplicação.

O encontro promovido pela FEMACO e pelo SIEMACO Vale do Paraíba mostrou que a saúde mental já não pode ocupar a última página dos programas de segurança. Ela precisa estar no diagnóstico, no planejamento e nas decisões das organizações.

Porque prevenção de verdade não começa quando o trabalhador adoece. Começa quando alguém decide ouvir, identificar o risco e agir.

Por Fabiano Polayna I MTB 48.458/SP (Texto e fotos)

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